sábado, 3 de novembro de 2012

Umbanda Preconceito e Discriminação




A Laicidade do Estado






Durante o processo histórico no Brasil, houve evoluções e atrasos em relação à laicidade do Estado, concretizando apenas com a constituição de 1988. O Brasil atualmente tem uma democracia estável, que ruma para um certo grau de liberdade e igualdade de gênero, sexualidade, etnia, religião, entre outras característica inerentes à escolha e existência do cidadão, desde que não infrinja direitos de terceiros.
Na formação do Estado brasileiro, estávamos muito longe de um Estado laico, o entrelaçamento das leis com a moral católica era tão grande que a fronteira entre elas se tornavam imperceptível, onde se pode ver que em 1824, onde a Constituição do Império foi promulgada “em nome da Santíssima Trindade”. 
Nessa época, tínhamos uma religião oficial, algo que desrespeitava totalmente a individualidade do ser, a individualidade do cidadão, como se todos tivessem a mesma escolha religiosa, se é que a palavra escolha pode ser utilizada. Foi durante esse contexto que as outras religiões, principalmente o espiritismo e as religiões afro-brasileiras como a Umbanda sofreram ataques, perseguições e repressões de origem militar, pois as práticas desses cultos eram considerados crimes, e isso aconteceu até pouco tempo atrás.

Segundo o Observatório da Laicidade do Estado, podemos citar inúmeros acontecimentos que caracterizavam essa época do Estado atrelado a Igreja católica, como:
  • O clero católico recebia salários do governo, como se fosse formado de funcionários públicos;O Código Penal proibia a divulgação de doutrinas contrárias às "verdades fundamentais da existência de Deus e da imortalidade da alma";
  • Os professores das instituições públicas eram obrigados a jurarem fidelidade à religião oficial, que fazia parte do currículo das escolas públicas primárias e secundárias;
  • Só os filhos de casamentos realizados na Igreja Católica eram legítimos, todos os outros eram "filhos naturais";
  • Nos cemitérios públicos, só os católicos podiam ser enterrados. Os outros tinham de se fingir católicos ou procurarem cemitérios particulares, como o "dos ingleses" (evangélicos), no Rio de Janeiro.


Hoje a situação é bem diferente, o direito de culto é assegurado, mas ainda vemos situações que precisam de alguns ajustes para consolidar nossa democracia. As sociedades religiosas não pagam impostos (renda, IPTU, ISS, etc) e recebem subsídios financeiros para suas instituições de ensino e assistência social. O ensino religioso faz parte do currículo das escolas públicas, que privilegia o Cristianismo e discrimina outras religiões, assim como discrimina todos os não crentes. Em alguns estados, os professores de ensino religioso são funcionários públicos e recebem salários, configurando apoio financeiro do Estado a sociedades religiosas, que, aliás, são as credenciadoras do magistério dessa disciplina. Certas sociedades religiosas exercem pressão sobre o Congresso Nacional, dificultando a promulgação de leis no que respeita à pesquisa científica, aos direitos sexuais e reprodutivos. A chantagem religiosa não é incomum nessa área, como a ameaça de excomunhão. Há símbolos religiosos nas repartições públicas, inclusive nos tribunais. (http://www.nepp-dh.ufrj.br/ole/posicionamentos2.html)

Umbanda – Preconceito e discriminação

Durante o processo histórico brasileiro a Umbanda foi acusada de curandeirismo e charlatanismo, e perseguida por instituições católicas e militares, devido ao poder político da Igreja Católica, e, a já extinta, Delegacia de Costumes que tinha por competência atuar nas denominadas contravenções penais. Ao longo da história, teve funções diversas como “investigar, prevenir e reprimir a prostituição, evitando que afetassem a moralidade pública, as ações que pudessem afetar a honra e a dignidade das famílias, as manifestações que contrariassem a moral e os bons costumes, além da venda ou mesmo a exposição de livros, desenhos e gravuras que ofendessem a moral. Também teve como função reprimir os vadios, os embriagados e os falsos mendigos que andavam perambulando pelas ruas, já que eram considerados "inimigos da sociedade", e até mesmo coibir a realização de rituais de feitiçaria, o que incluía a prática de candomblé e umbanda.

A Umbanda não sofre mais represálias dessa gravidade, mas ainda há preconceito e discriminação sobre seus ideais e seus adeptos, seja por falta de conhecimento da doutrina, seja por influência dos ensinamentos de religiões evangélicas e católica que se fundiram com o senso comum da sociedade brasileira, claro que essa é uma visão de maneira geral, visto que não deve ser feitas generalizações acerca da opinião pública, e também nem todos os adeptos de religiões católica e evangélicas discriminam os Umbandistas.

Com os últimos censos realizados pelo IBGE, observamos que o número de pessoas que declaram ser umbandistas vem caindo sucessivamente desde o censo 2000, em que 432 mil pessoas se denominavam umbandistas, em 2010 esse número caiu para 407 mil.

Segundo o sociólogo Flávio Pierucci, livre-docente da Universidade de São Paulo (USP), citado por ESTADÃO¹, o discurso agressivo contra a umbanda e o candomblé surte efeito. “O número de adeptos de religiões afro-brasileiras está caindo vertiginosamente, o que significa que a contrapropaganda está funcionando. Essa demonização dos orixás funciona, porque as pessoas têm medo. Com pastores sistematicamente na televisão ou no rádio dizendo que aquilo é o demônio, realmente as pessoas começam a achar que existem religiões demoníacas no Brasil”, afirma.

O Brasil ainda é um país religioso; apenas 15 milhões de pessoas dizem não ser seguidor de religião alguma. Os costumes, datas comemorativas, a moral e a ética em um país religioso é altamente influenciado pelas religiões majoritárias, e com isso, se as preconizações dessas religiões discordam veementemente de outras crenças, ao longo da história, vemos que esses ensinamentos são injetados na opinião pública. É exatamente isso que ocorre em relação a Umbanda, com a radicalização de algumas religiões evangélicas em rádios e tevês, presenciamos a demonização da Umbanda e de suas práticas, e isso acaba por se tornar uma opinião pública acrítica e quase que automática, junto disso está a falta de conhecimento das pessoas e a falta de pesquisa sobre novas ideias.

Além do preconceito na esfera da religião e da espiritualidade, temos também, o preconceito racial. A Umbanda durante sua origem foi vista como uma religião de negros de indígenas, devido a incorporação de espíritos de pretos velhos, caboclos, etc. Com isso aliado do preconceito religioso, a Umbanda ainda sofre um preconceito racial, que advém de anos de escravidão e subjugamento do negro.

“O negro, que no Brasil, já habitava e muito o imaginário europeu, como um ser inferior, demoníaca, infernal, herege e sem alma, segundo a Igreja.
O fato ser considerado com um ser alma, impossibilitava a sua salvação. Assim, não era necessário justificar sua escravidão, se tornando um bem para a humanidade, que estava sendo expurgada de um elemento ‘infecto” e “animalizado’, que poderia contaminar os homens com sua cultura satânica.” (MACHADO RIVAS, 2008, p. 46).

Como podemos ver no trecho a seguir, não só a discriminação contra o negro, mas também a discriminação contra o índio levaram a discriminação contra a Umbanda na esfera racial, que ocasionou esse pensamento acrítico sobre a Umbanda até os dias atuais.

“Isto levou a descriminalização de qualquer traço cultural, que remetesse ao indígena e a um franco processo de exclusão social. Inclusive a utilização da nomenclatura “caboclo”, que havia sido proibida por lei dois séculos antes.” (MACHADO RIVAS, 2008, p.35).

Referências Bibliográficas

1.      ESTADÃO. Aos cem anos, umbanda ainda sofre preconceito. http://www.estadao.com.br/noticias/impresso,aos-cem-anos-umbanda-ainda-sofre-preconceito,278344,0.htm. Último acesso em 06/11/2012 às 19:46.

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